donnafugata
Junho 09, 2004
 
ONURBIS LEUGIMONIS EULBORIS
missli1969@hotmail.com

...Se pudesse...fechava os olhos de mansinho encostada ao teu peito e pedia no silêncio a hipótese de suspender o tempo...que o tempo entre nós vai passando como uma montanha russa e eu queria só o passar de carrossel!
...só o passar de carrossel, lento, colorido, a embalar cada momento de nós...e não este aperto no estômago, esta ansiedade de descida precipitada...e eu sei que se passa tudo dentro de mim...a ansiedade...a precipitação...
...Parto em busca de mim em cada dia, que me perdi por aí em mil reflexos, e vou recolhendo ,com dúvidas, características que penso reconhecer...Tu trouxeste-me a alma e a vontade e o desejo e fizeste-me parar e olhar e ver e tentar mudar! Tão jovem e tão idoso nas tuas memórias és digno de qualquer paisagem romanesca...Personagem belo, denso, intrigante que se vai apresentando em cada cena com muita agilidade e mestria...
...Quando olho para ti apetece-me chorar e rir e dançar e beijar.
São as vagas altas que te enchem o olhar, são os raios luminosos que vibram em teu redor...
...Não sei de onde vieste, como te encontrei, se vais partir em breve ou se és a minha amurada...Sei que os meus dias são diferentes por te ter conhecido e basta isso para estar bem...
...Mas as partidas que a cabeça me prega continuam a armadilhar-me o humor, a tornar nulo qualquer rastilho em implosões dolorosas!
...Ainda assim: pelas tuas longas mãos, pelos teus olhos doces, pela tua pele morna, pelas tuas palavras sérias, pela tua frontalidade...É também por isto que me deito e me levanto, é sobretudo importante lembrar-me que isto é viver!!!

Junho 02, 2004
 
...O ALGARVE FICOU MAIS PERTO...
missli1969@hotmail.com

...Ficou a voz a SUL, e o paradigma do nada a sobrevoar as montanhas...
...Que o tempo se concentra em ampulhetas secretas de areias coloridas de praias desconhecidas, e a sua noção é salpicada pelas ondas a rebentar estrondosamente, ecoando em vidro fino o som imortal de uma voz...
...A Sul...para lá das searas, para lá do Alentejo quente, fica uma voz que se materializou em gosto doce de passa madura...
...Para lhe oferecer os recantos ainda nus de amizade no meu peito, nada mais, só tudo isso, que já vibro cá em cima, e me comovo com um sorriso que me faz cócegas numa espiral de carinhos.
...Que não gosto de tocar sequer a fímbria da dor alheia, da solidão do outro sem merecer uma memória sã de vontade pura e essa voz perdura quente no meu tímpano...
...Amanhã será outro dia, hoje o meu dia é este corpo e outro corpo, moreno e morno, em entardeceres de bruma e amanheceres de sol e luz.
...Que o tempo te sorria na brisa uma essência feminina com abertura total ao teu encanto, sem este enlace, para te receber totalmente na tua paz e honestidade!
Maio 31, 2004
 
EM LOUVOR DESSES BEIJOS TERNOS
missli1969@hotmail.com

...andei por aí longe do blog!...
...a criar laços, a reencontrar o sorriso que havia perdido entre tanta confusão, a brincar! Encontrei alguém que até o brincar leva a peito, enchendo de requintes o mais leve beliscão... Encontrei...Alguém que me faz rir de mim própria com o discurso mais irónico e carinhoso, alguém que me faz sentir gaiata com vontade de correr praia afora...Alguém que pelo que já viveu não tem medo de viver, que garante a importância destes momentos com a memória de outros mesmo dolorosos! Encontrei!

...raciocínio rápido, perspicácia, sabedoria, adrenalina, força, capacidade de amar intensamente e de fazer e de dizer com todas as letras o que sente e o que quer! Encontrei e venho sendo companheira de um homem diferente, com o qual me sinto identificada no bar mais apinhado, como tendo um lastro de luz que me segura ao seu sorriso no lado extremo da sala...que me sabe tão forte e tão frágil, muito triste mas de uma alegria assustadora e que estabelece comigo uma relação de confiança que
achei impossível encontrar!

...comprometo-me comigo própria numa construção diferente, de templo sagrado, de terreiro, de caverna primordial...e pela força com que martelo o escopo, e pelo cuidado com que tacteio cada cubo de pedra, cada talismã sei que CHEGUEI a um momento especial que terá que ser gerido de uma forma ainda mais especial!

...e no beijo que dou aos meios filhos flui uma energia diferente e eles apercebem-se e o nosso amor intensifica-se e o lugar que eles ocupam reveste-se de mais algodão acolchoado...eles sabem...eu sei...

...muito empenho, muita cautela, muita vontade, muita força para o que se avizinha...(nestes momentos descobrimos como a gravidade nos afecta, como temos que ter cuidado com o que fazemos ou pedimos para ser feito, com os malentendidos, com a nossa ingenuidade que distorce as noções básicas de espaço-tempo, com a racionalidade imperativa dos outros que se assustam com o nosso "estado de alma alterado" e com a amizade total daqueles que se solidarizam e estão a ajudar de facto!)

...sou quatro em uma, portanto sou mais do que uma, e continuo a ser eu mesma...tocando em muitos outros de muitas e variadas formas!
Maio 26, 2004
 
MISSLIBLUE
missli1969@hotmail.com

Na encruzilhada?
Na encruzilhada torpe dos sentimentos?
Na torpe encruzilhada dos acontecimentos?
Vou mas fico, fico e vou, fico mas vou...
Vou ficando na encruzilhada torpe,
que torpe?...
que encruzilhada?...
Torpe não condiz com o nosso olhar,
encruzilhada só se for dos nossos corpos,
ficar só se valer a pena,
ir só se for p'ra lá do horizonte!

Ás vezes o medo a desafiar, baixinho,
às vezes o desejo do toque,
que fosse apenas roçar de dedo mindinho,
às vezes a vontade, às vezes a necessidade...
Sempre a poesia a emaranhar-se-me nos cabelos,
sempre a escrita como tatuagem dos momentos,
sempre o prazer de emoldurar a pinho crú
o retrato das memórias mais abençoadas.

Se James Dean , se Vínicius, se Bogart?
O Mar...
O Mar que é dele que sinto falta,
que é da sua voz que me fica sempre a saudade,
que é de o ver que me liberto,
e de o provar que me completo!
Prometo-me a mim mesma o Mar!
Marco encontro em qualquer praia ou rochedo
para te receber amante-mar!Que te dás intensamente,
que és todo envolvente: será doce o afogar?









Maio 23, 2004
 
DESSE RETIRO
missli1969@hotmail.com
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...crer na dimensão deste bungalow é a vontade da poesia a pulverizar-se em cada sorriso, a aspergir-se em cada toque.
Manifestação atempada de um robe de seda macia que molda e seduz o reflexo dos pinheiros que conquistam pela janela o seu decote, o seu cinto tão facilmente deslaçável...
...crer na expressão de um rosto que dorme o que é queixo,o que é maxilar,o que é septo nasal...desenho mental intenso, as linhas masculinas a carvão forte, a dimensão estrutural e anatómica de uma beleza mutável, fotografia a preto e branco...
...crer em mim na renovação pela água, duche forte, cheiro doce e ,no escorrer da água, ansiar por uma diluição metaforizada!
...e o turco branco na carícia a mim mesma,e o creme escolhido tem o corpo como receptáculo, e a massagem é movimento invocado pela prece interna de brilhar!
...ai crer assim, que descendo descalça estes dois degraus de madeira gasta e assentando a planta dos pés na caruma seca alcanço o poder de ser diferente...e que encontro na abóboda de céu a dignidade da noite lenta em mim, da lua ténue e da estrela mansa!
...acreditar na impessoalidade deste lugar como purificação...restituir-me à natureza no acto solitário e iniciático de respirar e ter consciência de todo o processo:inspirar...expirar...tórax...pulmões...oxigénio...
...a noção de retiro como flecha taciturna em lento recuo...a solidão a vibrar, música sem palavras embebendo o meu dia (a tua arte Baden Powell) e a voz desse lendo-me ,em voz alta, os textos que trouxe em livro, antologia de páginas amarelecidas...
...mesmo dentro de Lisboa o abandono, os pássaros, a idealização da pradaria solitária, dos retiros dos eremitas desconhecidos da sangria:vinho+gelo+gasosa+laranja+limão+maçã+mel...
...estar pronta para PARAR só na exaustão do(s) corpo(s)...
...para ensurdecer só descendo de carrinho de rolamentos pelas veredas em aparatosos despistes...
...para emudecer só filmando a gata a parir aqui ao pé num acto de uma nobreza aterradora e comovente até ao comer da placenta, na sugestão desse instinto tatuei no meu seio a maternidade...
Só faltou o Mar a chamar noite dentro ,fez a coruja o seu lamento, mas nada como o rugido do Mar para travar a ânsia de Ter, para nos redimensionar e recriar-nos na proporção holística do Todo...
Cantei ,primeiro baixinho, depois bem alto, sem reconhecer a voz que emitia...dei comigo a dançar ,sozinha, num abraço suave em que outros braços vieram da memória para me enlaçar!
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Maio 19, 2004
 
VINICIUS JOVEM
missli1969@hotmail.com

" SONETO DA SEPARAÇÃO"

"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente."

(Oceano Atlântico,a bordo do "Highland Patriot"
a caminho de Inglaterra, Setembro, 1938)

..."de repente, não mais que de repente"...a noção extrema do tempo avulso, inesperado, mas dizível na graça de ser em instantes passado. "De repente" tem sido em mim uma constante que me desequilibra mais vezes do que me norteia..."não mais que de repente" tira-lha essa carga de acontecimento trágico, devolve-o ao seu estrato, à sua condição vulgar de mutável...Treinar a serenidade ,meu querido amigo,tem que passar por muito movimento!Vou ter que tomar consciência do corpo, vou ter que ir rapidamente para um ginásio suar, suar muito, desgastar em extremo as energias para poder canalizar bem o que sobrar. Ideia construtiva e acertada...
 
SER-TE GRATA...
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...Hoje li palavras que me lembraram os grandes homens da minha vida.
Ouvi a voz baixa do meu pai, ouvi as coordenadas que o meu irmão Fausto tentou passar-me entre esta e aquela canção, esta e aquela resposta às minhas perguntas da fase dos porquês; ouvi a voz do meu irmão Nelson, o meu belo irmão louro de olhos verdes,a tentar orientar-me durante a anorexia; ouvi a voz grave e profunda do meu irmão Jorge, que marcava pela dureza ; ouvi a voz do meu irmão Luís (Rico), o filósofo, com grandes argumentações acerca da força do EU...todas elas na voz de alguém que para todos os efeitos já é um pouco amigo e apetece-me dizer-lhe: OBRIGADA. Obrigada por ser tão construtivo nas críticas que me teceu, por me pôr na linha numa suave dureza que eu precisava e lhe vinha pedindo com o desatino das palavras.Ai que vontade de seguir essas verdades piamente e crescer em auto-domínio...Ai que vontade de fazer diferente!
Maio 18, 2004
 
TERNURA
missli1969@hotmail.com

"Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente

E posso te dizer que o grande afecto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade
o olhar extático da aurora"

MESTRE VINICIUS DE MORAES



...calor morno, pé descalço, saia fina, doce liberdade de cor e de movimento...os pássaros apostam nestas manhãs mornas de Maio!oiço-os bem na intensiadade com que comunicam com a brisa suave que faz vibrar as folhas das suas árvores...faço o silêncio interior ouvindo-os, tentando dissipar as manchas que se foram instalando neste e naquele pensamento!Procuro na manhã e encontro pássaros e Vinicius, há pouco beijei os meus filhos para eles irem para a escola, vou sair à rua dentro de nada e quero franzir os olhos com cada raio de sol...que estou a ser levada pela mão por esse ser imenso que hoje resolveu fazer-me companhia...obrigada Vinicius, pela tua mão rugosa, pelas tuas palavras de whisky bem mal doseado, pelo teu caminhar tão leve de fantasma a contrastar com a força imensa da tua mão na minha mão...vamos à procura de um piano por aí!Vou aprendendo com o trinado dos pássaros a cantar o que escreveres musicado na sobreposição destas duas dimensões que atravessaste...BEM HAJAS MESTRE...(re)criei-te de carências minhas para desconstruires os meus motes e me fazeres aceitar a doce noção de solidão...e a ti mestre posso dizer-te ,sem nenhum constrangimento ou má repercurssão,AMO-TE!
Maio 17, 2004
 
"MAD ABOUT THE BOY"
missli1969@hotmail.com

(cantada pela voz feminina mais intensa)

"Mad about the boy,
I know it´s stupid to be mad about the boy,
i´m so ashamed of it,but must admit
The sleepless nights I´ve had about the boy,
On the silver screen,
He melts my foolish heart in ev'ry single scene,
Although I'm quite aware that here and there,
Are traces of a cad about the boy.
Lord knows I'm not a fool girl,
I really shouldn't care.
Lord knows I'm not a schoolgirl,
In the flurry of her first affair.
Will it ever cloy?
This odd diversity of misery and joy.
I'm feeling quite insane and young again
And all because I'm mad about the boy."
Maio 14, 2004
 
MOTE IST/BOSSANOVA
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...Ai se fosse em Itapuã o controlo de dados!
...Ossanha testar-te-ia na instrumentação!
...Soaria o Berimbau como grandeza!
...E a Primavera serviria como componente,
...E a Felicidade como um dado a controlar.
...Adquiri-la-ias em Apelo como guia-Alegria,linha,medição.
...Eu? Talvez Arrastão dispersivo,ressonante e não linear?
...Querendo ser tensão,corrente,frequência?
...a Insensatez dos amplificadores?
...Querendo-te Consolação como atenuador e filtro,
...Neste Samba-plasma,nesta Serenata-feixe,
...Saudade-feixe-plasma!...Não saudade não, Espera...
...Relatório adiado...
...Uma Valsinha como onda,uma equação como um Adeus!
...E Propagar tudo às fontes,aos geradores,ao tempo,aos sinais,
...aquela Bossa-guia cilíndrico, Nova-guia-rectangular,
...p´la Cavidade da tua guitarra uma mulher,
...em que fundes a energia com a música
...sem vontade linear
...mas com o todo o prazer coaxial...
...Jobim sempre como antena,
...Vínicius só mesmo como o Mar...
...E afinal só procuramos a Paz!




Maio 13, 2004
 
TRAILER
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Não chegaram as pétalas de calêndula para se purificar, a infusão de laranja e menta para se perfumar.Idealizou então um aroma único que pudesse dinamizar-se nas suas narinas em sedução e embebeu-se nele.
Cada cor vestida a representar um mote, cada brinco, cada colar, numa simplicidade aparente:um ícone.E nem sequer faltaria a escadaria branca á sua frente por onde ele desceria...
Puro sonho depurado em semanas de recordação silenciosa dos seus lábios fortes, do seu ar doce e dominante de hashimoto, dos seus abraços intemporais que afinal teria que reduzir àqueles instantes anteriores e não se reproduziriam em filme, não se reproduziriam sequer em cena.Porque com sobriedade desceu e veio dando a entender a distância neutra que escolhera.
Traiu-se quando mesmo depois desta certeza lhe deu a mão e a apertou...Traiu-se quando tentou encenar de novo o fascínio e lá dentro um poltergeist a transtornou...Traiu-se quando não quis compreender a mensagem...E traiu-se tanto que quando ficou sozinha o ícone esboroara-se e o pó fino cheirava aos milénios que de facto tinha, e a geisha não era mais que uma borboleta tonta tentando acertar em frincha de janela.
Por isso, em silêncio, invocou em prece uma divindade qualquer de jade frio ou ouro quente para chegar ao fim desse dia, que isso bastava.E decobriu o que queria ter tido dele e não tivera...a sua boca ressecou, os seus dedos engelharam-se, os olhos revestiram-se de película opaca e gelatinosa. Parou, emparedando-se na primeira barreira de tijolo e argamassa sem conseguir já gritar...
Mas veio o seu raio aquecê-la,a sua chuva hidratá-la ,quebrar-lhe o muro em volta e desfolhá-la da pele seca e reconstruir com um sorriso alguma beleza,para tentar as palavras e dizer em vez de emudecer...e disse da sua traição, da sua carência, e foi impertinência da sua parte que não estava escalonada na grelha do outro e o eco que ficou ,ficou desprogramado em som artificial.
E foi tanta impertinência que sacou de si o lado lunar transfigurando-se sem necessidade deixando outro mais que assustado, sem acreditar que as deusas podem ser feras disfarçadas, duendes mirabolantes, suícidas frustradas que se deliciam com a imolação.Pois manteria a sua fórmula perfeita que lhe confere a solidão cómoda, a tristeza conhecida e já companheira que o cumprimenta todos os dias entre cada tarefa e se solta nas cordas que dedilha em jeito de sublimação e que escolheu e que é legítima e que é o que ele quer.Àmen...
Compreendeu a geisha o quanto preferia ser em vez de ícone a guitarra e estar com ele na mesma madeira lacada, envolta em cordas à espera do seu tom e da força da sua alma na energia das sua mãos. O quanto queria a geisha ser a silenciosa guitarra que só diz quando ele quer que ela diga, e que espera ,silenciosa, sempre ao alcance do seu olhar, que ele a ponha a tiracolo e a leve consigo ou que a deite de barriga para baixo com atenção e com cuidado pela sua forma e conteúdo.
Mas a geisha não era a guitarra e talvez por isso mesmo o fascinasse!... que produzisse música sozinha com as palavras que lhe enviava e lhe aparecesse de um lado qualquer que não previra, e que não precisasse de treino nas suas mãos às vezes muito doridas,que fosse só fruição, paragem de tempo, respirar sem amarras... desviar-se daquele caminho tão fácil que ela lhe mostrava, caminho sem ensaio, sem treino, sem estudo, sem correcção, caminho que não se tinha proposto caminhar, pois o cajado que escolhera era bem mais pesado mas bem mais parecido com todos os seus dias, não era belo, era simples, não implicava pôr sonhos em causa, não implicava esforçar-se mais uma vez sem ter a certeza de que valeria a pena. E era assim,e assim seria e a brisa assentiu...
E a geisha devotada começou a despir os seus invólucros de seda e sedução, cada tira que a envolvia puxada suavemente...até tocar a espada longa que mantivera junto ao ventre...a pega aquecida pelo seu corpo em toque fálico, levantou-a no ar com o som da lâmina bem afiada , olhou-a brilhante, virou-a para si, a ponta bem no centro do ventre, a gota de sangue bela da cor do verniz escolhido das sua unhas a desenhar-se...pousou então a espada...com o dedo recolheu a gota de sangue e lambeu-a...(uma gargalhada atravessou-lhe a garganta...)
Sem seda e sem hashimoto, vestida de ganga e algodão, propôs-se trabalhar mais um pouco,investir talvez na amizade que lhe ofereciam. Olhou em volta, as portas não eram de papel de seda,nem se afastavam levemente, eram gigantes e de ferro,requeriam toda a sua força para serem abertas...que a divindade de ouro ou jade, andrógina, multiforme a esperava imersa em Amizade, essa sim digna da devoção total!
 
Seguir em Frente
missli1969@hotmail.com

Seguir em frente
que a dor nem vale a pena
e tudo passa
mas enquanto dura e é presente
se pressente nela um vazio qualquer
que não se entende
e não se quer

Secar as lágrimas sem secar a vontade
de repetir em cada dia os momentos
que nos levam à doçura
com intensidade
que nos levam aos sentimentos
dar vazão à alegria
entre as brechas
atirar à água todas as queixas

E vir à tona de nós mesmos
espapassados, transtornados
mas com a certeza de termos vivido
e não termos só sobrevivido

E mergulhar de novo sem prévio aviso
nas águas mansas deste ventre mais liso
p´ra recordar o fascínio
de avançar a braços para aquele rochedo
em que o sol incide
no maior silêncio

Deixar escorrer então
em líquido
a hipótese de te abraçar
como amigo
para te recuperar no lastro
do sentido
que é tentar encontrar-me
no teu azul índigo
e recuperar a chave mestra
do meu sorriso

Fosse conferida ubiquidade
e morreria em segundos
sem saudade, sem possibilidade
de engendrar(te) nos meus sonhos
DEMIURGO

Matasse em mim esta fome
e adormeceria
rapidamente
no que inventasse
de tão carente
em braços que me envolvessem
abraçando-me nesses momentos
isolados
de vazio

Até já!_ quero dizer
sempre
mesmo que seja para só te ver
daqui a um milénio
imenso!
Maio 08, 2004
 
Ó TROVADOR
missli1969@hotmail.com

Disseste e construiste em mim um suporte qualquer radioso em que se calou a ansiedade. Cresces Homem em mim, mulher-menina-moça ,com palavras simples e gestos de uma beleza imensa.
Cada dia a ausência se torna mais longa sem perder os contornos de espera preciosa. Os doces sabores recordam-se em frémito. Longe da rotina, a sede intensifica a diferença.
Que não és só êxtase, és energia sempre, mas ressoas a realidade, a possiblidade.
Que não és só voz profunda ou memória de longos momentos-beijos-olhares, és pessoa.
Já não és só sonho.
Instalaste-te com essa temperança numa das concepções de mim e da poesia, da música, da invenção produziste gosto de te olhar nas pequenas coisas banais.
No respeito que transmites um feixe de loucura qualquer trespassou a hipótese e conhecer-te é a viagem que quero... conhecer-te ao teu ritmo, vou tentar adequar o meu para te responder, para te perguntar...que já embarcámos!
Maio 03, 2004
 
PAPOILA
missli1969@hotmail.com

Papoila feita lírio de pétalas majestosas e haste comprida e perfume enebriante de orquídea selvagem vieste de ganga e o colorido dos teus ténis não passou despercebido...Corola gaiata de menina sorridente, estame fortíssimo, pólen amistoso mas reservado a enxames bem escolhidos de obreiras sapientes...Decididamente no meu coração as tuas mãos longas e o teu sorriso!
Falámos num dia em que eu tinha andado perdida numa manhã ensolarada de sábado à procura nas memórias de marcos e histórias que me aconteceram...talvez não te tenha transmitido o brilho intenso que me trouxeste, mas guardei algumas folhas de ouro fino para te polvilhar os ombros e vou colher-te malmequeres, ou se calhar pintá-los para ti...
Gostei tanto!
Volta sempre!

Abril 29, 2004
 
SUMÁRIO EM TIC-TAC
missli1969@hotmail.com

...o tempo vai passando, dia após dia, o meu filho vai descobrindo coisas novas e questionando-as, a minha filha enriquece mais e mais o seu vocabulário, a sua gramática vai vibrando num discurso alegre e contemplativo, mas muito precoce na concepção de si mesma e de tudo o que a envolve. Tenho cá em casa um racional medidor de tudo, experimentalista, de dedução rápida e vício de observar, acumular dados, enunciar problemas, e agora até compôr pequenos trechos de música e por outro lado uma sonhadora, muito humanista, muito do onírico, muito de colocar as palavras como transmissores de sensações,de as encadear, de as cantar, muito poética e sensível. Quando chocam estas duas personalidades surgem discussões acesas, pela sua diferença de idades o Gil acaba por achar um modo nonsense qualquer de terminar a argumentação em que a põe completamente desvairada e a chorar...ontem ouvi o seu riso baixinho, e a sua voz ainda mais baixa continuar a espicaçar mesmo além das lágrimas, gozando com as lágrimas, não me contive. Peguei nele, levei-o para o quarto e no meu cenho franzido tentei passar-lhe como custa sofrer-chorar e alguém gozar baixinho, e explicar também a dimensão que isso tem para a Sarita pequenita...Dizer-lhe que por muito que lhe apeteça deve começar a pensar que pode ferir e que deve refrear essa vontade de ferir...Talvez tenha exagerado a admoestação. Talvez isto já tenha acontecido qb e ontem me tenha saltado a tampa...Mas acho que ele entendeu. Quando a Sara adormeceu vi-o espreitá-la, aconchegar-lhe a roupa... E sei que há os outros momentos em que se perdem em brincadeiras dinâmicas, em que ele lhe tenta explicar o mundo , em que a protege. Creio que toda esta panorâmica faz parte de sermos família!

...o tempo vai passando, hora após hora...a Marlene ausente, a Anabissa cada vez mais no meu coração, a menina que corre atrás dos sonhos como se eles fossem borboletas usando uma rede esburacada tecida de demasiado bom senso, a Sara cada vez mais a portadora da razão e ao mesmo tempo cada vez mais próxima do meu íntimo, confidente espectacular, ás vezes muito rude e directa outras vezes capaz de me embeber em preocupações e carinho, a Sandrinha a seguir em frente, a ultrapassar problemas, a dar-me a sua mão pequena e fria, a massajar-me e a tratar de mim sempre querendo oferecer-me beleza e bem-estar, uma menina neta de "manageira" alentejana !

...o tempo vai passando, segundo a segundo:
e que não se solte dos meus olhos
a memória da intensidade de outros olhos
de igual cor mas profundidade diferente,
e que não se solte das minhas mãos
o afago de outras mãos...
sem angústia,
o intante em flashs,
em que todo o meu corpo pára,
estremece e se retempera...
memórias a povoar-me os sonhos,
a inspirar-me a poesia
a fazer-me sentir de novo mulher...
Que brilhes na luz intensa que te traz o vibrar das notas musicais!...

...o tempo passa e tão depressa...
Abril 28, 2004
 
SERENATA
missli1969@hotmail.com

TERESINHA
"O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E,assustada, eu disse não

O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração"

Letra e música:Chico Buarque
In:"Ópera do Malandro", 1978
Interpretado por um trovador mágico num serão de enriquecimento, 2004


Do nada violáceo e enevoado fez-se um pouco de um tudo que nunca iremos abarcar, iniciou-se uma viagem sem destino sem rota traçada por dois mestres na arte de marear. No diário de bordo poude registar-se a bonança e de como a noite revelou um céu azul profundo e de como a ondulação ritmada levou a embarcação
para sul.


Abril 26, 2004
 
MOTE IST/CCB
missli1969@hotmail.com

Se conseguisse ser eu outra e eu mesma
Para multiplicar por dois este nosso dia
Ia querer despir-me da seda e ser geisha
Para te derramar óleo em vez de poesia

Ia querer estar contigo noite dentro
encontrar um modo de atravessar o tempo
em novo som e naquele compasso lento
que para lá do tanger das cordas te invento

E tocar nesses dedos a música que eles soltam
e na seda desta saia roçar as deliciosas notas
que suspensas na distância chegam e molham

Cruzar no teu raciocínio de precisão e de sonho
deixando travo profundo nos teus lábios
e rasto adocicado no teu corpo morno

Abril 22, 2004
 
ROGÉRIO
missli1969@hotmail.com

...dos teus olhos cansados,das olheiras,da tua mente brilhante....
...apesar das noites em que fazias do teu carro hotel e isso me preocupava
apesar da contínua simplicidade/naturalidade do teu riso...
...da complexidade das tuas ideias,da tua força, da tua vontade conseguiste!
...as cicatrizes existirão da vida a correr em brasa nas tuas mãos,
dos golpes das navalhas nas esquinas das decisões,
dos arranhões do tempo nas tuas costas...
...serão benvindas quando te revir!
...mas a alegria, essa capacidade de transformar e criar e inventar
que venham também,nesta incógnita de te reencontrar!
...para te conhecer/reconhecer em cada gesto,ou surpreender-me...
para te poder oferecer braçadas de carinho,
para te poder chamar amigo,
para te sorrir de perto os anos que passaram,
para te mostrar como se estancaram certos veios ,
e como desataram a vibrar cordas finas no meu cérebro!
...Vem que quero cruzar-me contigo!Que digam que é devaneio...quero poder
contar-te como brilham certas estrelas ou como me caiem anjos no regaço ou
como se estilhaçaram certezas
ou como se rasgaram dúvidas!
...Vem brilhar tu e cair no meu regaço
e estilhaçar as palavras e rasgar as hipóteses!
Ou então vem mesmo opaco elevar-te sobre mim,
colar os cacos,
coser os retalhos esgaçados das equações!
Mas vem...
(Agora num tom diferente porque cada um de nós é já outro).
Vem nem que seja só para poder seguir depois as tuas pégadas de longe,enquanto te esgueiras, enquanto vagueias...
Mas vem!
Espero-nos nalgum sítio, a qualquer hora,
enquanto desenho triângulos amarelos e azuis,
enquanto faço pilhas de palavras e entrelaço os minutos nas mãozitas da Sara e no brilho dos olhos do Gil!
Espero, mas que seja para breve que o anúncio já encheu o meu peito,
já polvilhou o meu presente de especiarias
e embaciou as janelas de onde vejo a paisagem
e avermelhou os meus lábios, tocou -me ao de leve os fios brancos do cabelo e fez-me pestanejar mais vezes..
Que SEJA ao menos... para os golfinhos retornarem ao Tejo e os linces repovoarem a Serra da Malcata e se descobrirem mais pinturas rupestres por aí...
Sobretudo que seja para que percebas o que basta,
o que é adereço,
o que não tem importância
numa e noutra onda que te apanhar desprevenido á beira de me (re) encontrar.
Sobretudo para que intuas que estas divagações se suspendem na/da minha imaginação em demasia e de como com a realidade até costumo ser um pouco mais comedida (ou será que não?)!
OLHA VEM E NÃO INTERESSA PARA QUÊ/PORQUÊ ...VEM SÓ POR VIR, PRONTO!
Abril 20, 2004
 
DANÇAR
missli1969@hotmail.com

...hoje é um daqueles dias em que o que sinto não condiz nada com as nuvens que vejo lá fora...apetece-me dançar...cantar...beijar os meus filhos uma e outra vez...
...tenho uma amiga nova, hoje vou ter a reunião de notas do meu filho e amanhã tenho a primeira conferência para o divórcio...que se pode querer mais!
...o que se passou há precisamente três meses parece que aconteceu na Antiguidade Egípcia...respeito curiosa as marcas que deixou...mas sei que estão como túmulos em camaras labirínticas...consigo ver algum dourado e algum azul ao longe mas com reverência ...
...hoje os meus dias são mais vivos...as cores da Mariana vieram até mim trazendo com ela uma paz espantosa e o presente parece recheado de framboesa...trincá-lo com a força certa para não se verter por aí afora...ir sugando pedacinho a pedacinho!O futuro? Amanhã? Quando?...Só sei da FESTA DA MÚSICA...do resto nem quero mais saber desde que a Sarita e o Gil estejam bem...tudo ok.
Obrigada Mariana, obrigada Henrique, obrigada Tiago, obrigada Sandrinha, Anabissa, Sara Sargaço, Marlenita, Papoila, Ruiva, Deusa do Blogue, obrigada até Bob Marley, Chopin e Rui Cunha!

Abril 16, 2004
 
MARIANA
missli1969@hotmail.com

Chegaram até mim as tuas palavras, desfolhei-as, deixei que ressoassem para serem tangíveis no todo e na parte. Tentei dispô-las em diagonal, filtrei-as com os líquidos mais sagrados, decantei-as para estabelecer com elas a relação inerente à resposta. Nesse processo todo muita energia, muita vontade. Vieram as respostas que te enviei. Que cheguem até ti na equação mais pura para que não se criem mais fantasmas, para que ninguém mais sofra pelo que passou ou pelo que se poderá passar. Para que o peso do PRESENTE te faça apertá-lo bem nos braços, que ele não é teu nem meu...flui através de ti em puzzles de paixão e amor intenso, vibra em mim em notas de saudade e carinho...partilha-mo-lo e partilhá-lo-emos em sintonias distantes e com milhares de seres...e partilhar é viver...saber partilhar num esquema saudável é mais do que viver , é ser-se feliz em mais momentos.
Não sei desenhar os contornos do teu rosto, não sei sequer a cor dos teus cabelos, a tua altura, a tua voz...sei mais, sei desenhar os contornos da tua essência,sei a cor viva do teu sentimento por ele, sei com que força o pretendes a teu lado, e por isso o teu retrato interior, espatulado, vai passar a viver em mim pelas tuas palavras. Paz para os dois.


Abril 10, 2004
 
BAILE ANTIGO
missli1969@hotmail.com

Só. Só um pouco mais de consciência neste segundo que passa para curar o passado e o futuro.
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Para vos contar uma história:

Estava atrás do balcão, andava pela loja e sentia-me observada de longe. Acreditei numa obsessão manhosa mas sempre que os meus olhos se cruzavam com aqueles, azuis, desencantava uma serenidade qualquer. Talvez pelo porte, pela bengala trabalhada em prata, pelo sobretudo impecável, pelo cabelo muito branco bem penteado, pela barba ainda mais branca , aparada... passaram-se alguns dias...viu-o avançar até mim como uma sombra, parar á minha frente e iluminar-se num sorriso. Com uma voz de muitos cachimbos fumados, cheirando a perfume e a tabaco, tomou dimensão :"Vai achar estranho mas tenho a certeza de já termos dançado juntos há cinquenta anos!"
Estranho achava sem dúvida. "Como se chama a sua avó?"_ não seria decerto a minha avó falecida um ano antes com noventa e nove anos. Disse-lhe o nome da minha mãe que ele automaticamente ligou a um diminutivo carinhoso e as lágrimas rolaram-lhe pela face._"Eu sou o Sérgio, amigo de juventude da sua mãe, dancei com ela muitas vezes, estive apaixonado pela sua graça e beleza... era com ela que dançava há cinquenta anos!" E era. Quando falei dele á minha mãe ela recordava-se. Ele conhecia e mantinha amizade com os meus tios. No dias que se seguiram trouxe fotografias, deu-me uma, mandou ampliar outras e de cada vez que me pegava na mão eu sentia a vertigem de uma valsa, a paixão de um tango, música chegava do nada e circulava entre os dois...Todos os dias me ia cumprimentar e deixava-se estar abrindo este ou aquele livro, perguntando por esta ou aquela pessoa do passado, como se tomasse um elixir qualquer, e sorria, sorria mais e
mais... Habituei-me á sua presença calma e respeitosa, ao pequeno bombom que me oferecia,ao café que ficava pago ali ao lado, ao desfiar das suas memórias.
Tentei que a minha mãe o revisse. Recusou-se."Passado é passado!"_ mas na sua voz fluiu a harmonia de um pequeno roçar de faces, de um toque mais apertado no seu ombro, de um olhar mais profundo , de um volteio mais sensual, de um piropo sibilante no seu ouvido...
Mudei de livraria, disseram-me que ele voltava diariamente ao mesmo canto. Pelos meus tios soube que ficou doente...Não tenho hoje a certeza de o cancro o ter levado mas tenho pena de não o ter abraçado, de não lhe ter beijado as mãos manchadas de nicotina e impregnadas de "old spice" e "lifeboy" para o remoçar e agradecer-lhe por me trazer o vislumbre de um passado onde não existi mas que parece ter sido vertido na minha memória em líquido morno de cada vez que cruzámos olhares, de cada vez que ele me apertou a mão...
"Sabia que se ri como a sua mãe, que tem os olhos dela, que na sua voz ouvi a dela?"_ sim, fiquei a saber sr.Sérgio que o amor que teve pela minha mãe ressurgiu aí, que o vosso desencontro me fez nascer a mim e não uma filha sua, que fiquei grata por nos termos (re)conhecido, que em mim surgiram laivos da vossa memória, que a consciência do tempo se dissolveu entre uma e outra história que me contou, que acrescentou pinceladas coloridas á imagem da minha mãe...Obrigada...
Abril 06, 2004
 
CCB ESPAÇO MÁGICO
missli1969@hotmail.com

Quando o sol aquece dou-me conta, mais do nunca, do previlégio que tenho em trabalhar no CCB.
Além da luminosidade que é projectada pelo mármore rosa, temos dois jardins diferentes para descansar. N'O das Oliveiras é o apelo da relva, dos troncos das árvores que nos amparam as costas enquanto fluimos através de raios mornos, dos pequenos piqueniques . N'O da Água a luz torna-se ainda mais intensa assim reflectida e a cadência, quase o marulhar, ajuda-nos a fechar os olhos e simplesmente não existir com físico por momentos.
Por outro lado, há uma paz imensa que vem do cheiro a cedro do Jardim de Belém, dos ciprestes e dos arcos do Mosteiro.
Mesmo em dias de grandes espectáculos ou festas, trabalhar ali é diferente, enriquecedor. Os dias nunca são iguais porque os públicos variam consoante a temporada, consoante o cariz dos eventos. Desde Nick Cave aos bailes de sábado na grande tenda, ao "grande estilo" Alunos de Apolo, com casais de idosos, elas de vestido a cheirar a naftalina e eles de penteado falso-escuro cheio de laca, que saiem depois aos pares e trocam olhares e beijos de uma adolescência de matinê tardia mas de uma beleza extrema que sucede o tango e as valsas. Elas em busca de livros sobre técnicas de pintura a óleo e eles a atirar para o Júlio Verne de bolso.
E ,além do mais, estando ligados ao Centro de Exposições, ter contacto diário com um mestre, Delfim Sardo himself, no seu melhor fato Armani ou no seu simples sweater branco de Verão sabendo sempre muito bem ao que vem.
E por estarmos ali ao lado da loja de chocolates, de cores vibrantes a relembrar a infância e a garantir um aroma prodigioso só batido pela Cultura do Tabaco com os seus tabacos, com os seus cachimbos e afins, com os olhos azuis de galã lá por detrás do balcão ou com a leveza e a graça ruiva de umas mãos miúdas mas tão vividas de mulher.
...e trabalhar com os livros que chegam e que vão, com os perenes e os caducos,com os que amamos e odiamos numa azáfama diária de montagem de puzzles em que jogamos com o espaço, lutamos com o espaço ,reinventamos o espaço entre uma caixa aberta de livros a cheirar a novo e uma caixa que fechamos numa devolução em jeito de adeus, por vezes, outras exultantes por mandar embora ,bem mandado, aquilo que não faz falta de todo.
...impossível deixar de mencionar os tops travessos da Lollipop, os tons pastel da Branca-de-Neve e a combinação ,exacta em tons e estilo,dos adereços da Chanel.A Pérola com a sua caixa mágica de esteticista e o seu sorriso inigualável nuns corsários de ganga e botas de salto corrido.
Ter este previlégio ajuda-me nas horas mais complicadas e acompanha-me nos sorrisos que tiro do nada! Reequilibra o facto de trabalhar numa cidade buliçosa e ter objectivos a cumprir.
Abril 02, 2004
 
PÉROLA,LOLLIPOP,CHANEL,BRANCA-DE-NEVE
missli1969@hotmail.com

Aprender a viver o presente bem vivido minuto a minuto é sem dúvida o melhor que podemos fazer. Concentrar-mo-nos é difícil, o nosso ego tem essa coisa de divagar por aí. Olhar e ver, ouvir e perceber ou fruir é algo que perdemos após a infância. Olhamos e vemos mais qualquer coisa, ouvimos mal e interpretamos rapidamente, peneiramos tudo com a nossa moralidade, com os nossos maiores ou menores preconceitos, até com a nossa amoralidade ou com a liberdade que julgamos possuir. Ou seja vertemos sem contermos ás vezes as maiores monstruosidades.
Parar tem que deixar de ser perda de tempo. Parar, respirar é a melhor estratégia para continuar. Ou então deixar-mo-nos invadir pelo silêncio pelo menos uma vez por dia depois dos gritos mais estridentes... Depois tudo adquire novos desenhos, novas amplitudes, novos caudais...
Hoje alguém em visita à livraria onde trabalho, ouvindo o riso das colegas, e vendo-as divertidas com esta ou aquela novidade, comentando este ou aquele acontecimento não poude deixar de comentar a muita diversão como antítese da muita produtividade.Nem sequer reparou que as mãos delas não paravam de colar etiquetas nos livros ou de introduzir facturas no computador, que a suas vozes mudavam de direcção consoante as estantes em que iam arrumar os livros. Não. O que saltou á vista foi o "alarido". Não se parou a observar o entendimento, o cruzamento irónico de refrões, as risadas mais ou menos sonantes como uma vitória da mente sobre o trabalho maquinal/manual.Não se somou a qualidade de tons dissonantes.O arquétipo de uma equipa trabucando silenciosamente, expedita e diligente de costas tensas e maxilares contraídos é assustador! Comentei que as admirava (sim a nossa equipa é toda feminina )por conseguirem organizar-se de modo a terem tempo para se preocuparem umas com as outras, de se conhecerem, de tentarem partilhar qualquer coisa mais do que trabalho...Comentei que me orgulhava dos seus risos, da sua jovialidade. Mas que também me congratulava por elas saberem parar um pouco, respirarem (tabaco a maior parte das vezes!) e retomarem o que deixaram até ao fim. E sobretudo por se surpreenderem por já serem horas de se irem embora ou de serem muito honestas quando o tempo está a custar a passar.
Para se conseguirem momentos de harmonia tem que se sobreviver aos momentos de caos.
Apreendo/aprendo cada dia uma tira nova das realidades que me rodeiam.
Quero dar valor á alegria e á amizade e isso não me tem feito perder nada, só ganhar.
Sozinha lá dentro do back-office vou ouvindo, ouvindo os passos, os dedos nos teclados, as vozes e desapareço dentro de uma grande tigela de conforto morno. Desapareço, em segredo ,para captar a realidade do sangue a latejar no meu pulso.
Viva a nossa equipa!
Abril 01, 2004
 
PERTURBAÇÃO
missli1969@hotmail.com

...Sei que as flores abrem as pétalas tingindo-as com tons mais fortes quando passas...
...Sei que algumas árvores te estendem os ramos em acenos suaves...
...Sei que algumas nuvens te perseguem com gotas de chuva desejosas de te escorrerem pelo rosto...
...Sei que os rios te convidam a mergulhar com a sua ondulação suave para que a água te envolva numa carícia gigante...
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...viajo de forma em forma como uma deusa celta, toda participante em conjunturas de átomos que de alguma forma te alcancem naturalmente, te toquem,te sintam mas não fiquem..não perturbem a tua liberdade e o teu êxtase.
...fluir pelo presente com a consciência das memórias...
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Março 30, 2004
 
PROCURA E DEVANEIO
missli1969@hotmail.com

Hoje a minha colega Marlene perguntou-me qual era a minha religião.Respondi-lhe que era Deus...ela parou a pensar...
A Marlene é católica praticante, catequista confessa e devota e olhou-me com os seus grandes olhos cor de avelã numa expectativa...pedia-me alguma coisa!E questionava a falta de informação que tinha acerca da Bíblia em si, imaginem quando lhe falei em Evangelhos Apócrifos e Gnósticos! Parou a olhar para mim...Disse-lhe para ir buscar a Tora e assustou-se ao reler primeiro o "Génesis", ao reconhecer Deutronómio, Levítico...
A Marlene teve permissão para navegar na net um bocado e ali estava ela absorta em Tomé...Sedenta de qualquer coisa que se calhar eu não sei dar-lhe tão bem como o padre Abel da sua paróquia para o qual leva uma série de dúvidas e questões num caderninho. Chegámos á conclusão de que o que interessa é a fé dela, a relação que ela estabelece com Ele...acho que remexi nessa relação mas não a pus em causa...Continuei a responder-lhe que a minha religião é Deus, que muitas vezes eu sou o meu templo e que a oração pode ser o monólogo mais básico ou o hino mais caloroso. E não me esqueci de lhe relembrar o interior e o exterior, a consonância com ela mesma e como passamos por momentos mágicos com uma frieza assustadora, de como perdemos, entre stress e rapidez,a capacidade de prestar atenção. De como perdemos a individualidade, de como nos apaixonámos pela infelicidade e nos esquecemos que a vontade comanda a vida e querer (com muita paciência!) é poder!E que nós podemos mudar tudo o que quisermos, basta estar atento. E de como o preconceito se esvazia perante essa caminhada, a dor desagua em serenidade, e a sabedoria chega instalando-se recatada em cada despertar para um novo dia...a iluminação?
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...Não me cansarei de te desejar a paz!
...Não me cansarei de sonhar se a realidade não vier!
...Não me cansarei...Jamais...
...Ajudarei o meu filho nos trabalhos de casa, pentearei o cabelo cada vez mais longo da minha filhita e cuidarei para que não faltem os yogurtes, o leite, a fruta e as guloseimas...
...Passarei fins de semana a trabalhar quando eles não estiverem...
...Planearei o meu futuro e o deles...
...Mas jamais me cansarei de te desejar a paz, mesmo que ela esteja nos braços de outra mulher!(Porque esteve também nos meus numa fracção ínfima desse teu universo de paixões!)
...Paz para ti!...
YAEREMIZ

Março 29, 2004
 
THE CAT´S TAIL OU DON´T PLAY IT SO HARD KITTY
missli1969@hotmail.com

As palavras são entidades milagrosas que nos podem levar á loucura do desejo ou á loucura do vazio. E há palavras tão fortes que requerem momentos muito fortes para as escrever, para verbalizar os diagramas que a memória nos envia. E há palavras ainda mais fortes e tão ressonantes a todos os níveis que podem surgir como atentados...Explodem contigo!
Não me refiro ao preconceito , não me refiro sequer á obscenidade á qual todos nós algumas vezes aderimos, refiro-me às palavras- bomba, aos textos- bomba e fazes-me lembrar uma palestiniana em autocarro israelita... Conheço de ti a tua voz, cruzámos já alguns minutos da nossa vida e quando tento encontrar o fio á meada que me estendes para dobar só encontro pontas cortadas...Claro que tenho paciência para as atar todas e fazer um grande novelo, mas não deixo de olhar para o novelo como um composto de angústia, dor e ...desespero?...
Don't play it so hard kitty!
Um gato enfeitiçado pela própria cauda acaba por se cansar de rodar, fica tonto, cambaleia... Quero dar-lhe este novelo que faço com as pontas atadas, tingi-lo de uma cor viva e dar-lho para ele brincar.
Se te faz algum bem verbalizar assim as hipóteses de usares o teu corpo para o sexo, ok. But even so Kitty, don't play it so hard... (Estarei onde tu sabes se algum dia precisares de alguma coisa!)
Março 27, 2004
 
SALTO VITAL
missli1969@hotmail.com

(Dei com o meu primeiro link.Muito obrigada "Guia dos Perplexos".)

Pendurava um ramo de flores silvestres na parede, corolas para baixo, caules para cima.E deixava secar...a poeira entranhava-se no que já tinha deixado de ser pétala,as cores desapareciam, esbatia-se tudo em seco acastanhado.
Da cozinha o cheiro a doce de morango ao fogo, mexido pela colher de pau que ansiosamente esperávamos que arrefecesse para saborearmos os primeiros pingos de um ponto de açucar que levara horas a apurar e perfumara tudo em volta...
...senti-te mexer cá dentro, quase uma cólica, existias! E quero para ti e para ti tantas memórias...
...senti a força da gravidade quando te puxaram de dentro de mim, e vi-te tão rosa, e senti o teu peso em cima de mim e vi-te mexer e eras pessoa!
...a ti consegui até cortar eu o cordão umbilical, meu filho, e choravas tanto, e os olhos são os mesmos até agora!
...quando vos pego ao colo, quando vos abraço, quando adormeço ao vosso lado sinto que vos conheço para lá desta realidade, que são meus velhos companheiros de nove meses de uma interioridade e de uma partilha inigualável.Há uma emanação de referências que não consigo verbalizar e que vos faz indivíduos...tão diferentes um do outro...tão iguais a vocês mesmos...cá fora e cá dentro!
Fazia renda. A agulha puxava a linha que ia e vinha e para nos deitarmos os lençóis tinham barras desse tecer de horas.
Repetia incessantemente ditados, rimas, verdades em histórias que conheciamos demasiado bem e povoavam familiarmente o imaginário dos nossos sonhos e depois o das nossas composições de escola.
...ambos chegaram até mim em busca do meu seio, e saciaram-se intuitivamente enquanto eu me dava conta de que vos estava a alimentar, a produzir leite e me perdia em devaneios pela naturalidade e pela magia e pelo significado das vossas bocas em movimento geneticamente reconhecido, sugando ritmicamente...quantas vezes adormecia contigo ao peito, meu filho e acordava assustada pelo embalo e pelo medo de te deixar cair...como me admirei com a tua força minha filha, de uma fome imensa!
Cantarolava refrões populares e sabiamos que engomava pelo tal refrão, que cortava a couve para o caldo verde (á mão e tão fininha) pelo outro refrão . Adequava a cantoria a cada tarefa,num padrão.
Corava a roupa branca ao sol lembrando-se das suas longas tranças que desfazia sempre á quarta-feira para a lavagem e o cabelo levava um dia a secar e de como nesse dia o avô vinha mais cedo para casa para te ver emoldurada pelo jardim e perder-se no perfume dos teus cabelos soltos. Por te amar a ti rapariga casada com ele por procuração e vinda para outro continente sem nada saber do que a esperava.
...as pesssoas vão tirando das vossas feições registos meus, registos deles, pais, e eu vou esperando poder ver um dia a tua barriga crescer minha filha e ser também avó.

 
AGORA
missli1969@hotmail.com

Agora já não custa ficar sozinha. As memórias e as tarefas vão surgindo prazenteiras e o tempo passa sem angústias.
Agora já posso estar totalmente com os meus filhos quando eles cá estão.
Redefini o meu tom, no cruzamento dos meus pensamentos já existo isolada, sem a pressão desse fio constante e invisível que me prendia a alguém.
Redefini a minha vontade comigo mesma e dessa forma o espelho reflecte uma imagem com a qual me identifico mais... Já não fujo da minha silhueta nos espelhos ocasionais.
Reintegrei no meu universo as partículas que me são de facto elementares. Decalquei das memórias as pessoas mais interessantes, de umas consegui um stencil, de outras um esboço frágil. Vou-me dando conta de que os anos estabelecem em nós certos marcos de sensibilidade e resistência, apuram algumas noções básicas de sobrevivência e obrigam-nos a redesenhar, com diâmetro bem mais limitado, o círculo de acção e influência dos que nos rodeiam.
Queria muito poder ajudar-te, amigo. Disse-te que respeitava o teu espaço mas tenho ganas de não o fazer:
Porque eu sei controlar-me, porque não quero que me seja dado nada, quero eu dar. Porque se estava a precisar dessas palavras amigas, tu estás a precisar de acordar para qualquer coisa...O nada não existe, se o concebes é por breves instantes, até chegar um amigo que te esbofetei e te faça sentir alguma coisa. Não estou para mimos, estou para abanões, arremessos de palavras drásticas, empurrões, frases duras... Está preparado?...Conversar sem festinhas, dizer-te coisas que não vais gostar de ouvir... Estás preparado?...Ás vezes pedes-me ajuda e aqui à distância nada posso fazer. Decidi que te vou dar um abanão...Estás preparado?...Tomara que não estejas, assim conseguirei ser ainda mais dura!
Resta saber se valerá a pena...Mas se não tentar nunca chegarei a saber.
Março 24, 2004
 
MESTRIA
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...a voz diminuindo no final do telefonema fez-me decidir...
...o sonho é o sonho a realidade é a realidade, só que ás vezes eu consigo uma amálgama do barro dessas duas noções...pego na minha roda de oleiro e faço crescer uma peça, bojuda e bela...preocupo-me em colocar-lhe pegas simétricas enquanto acendo o forno para a cozer...acho que nesta arte do forno eu não alcancei a mestria, ou não regulo bem o calor, ou não consigo medir o tempo ideal e normalmente as peças ou explodem ou carbonizam...muito raramente consigo uma peça real que arrefeça e ocupe espaço, e vidrá-las nunca...mas mantenho uma esperança qualquer que me faz voltar a tentar...tenho peças magníficas às quais ao longo do tempo fui acrescentando cores, colando conchas, envolvendo barbante, mas são muito poucas...como qualquer artista amador ando á procura das amálgamas de barro mais moldáveis...
...a voz diminuindo no final do telefonema fez-me decidir...
...para ti tinha imaginado um jarrão enorme sem base, quase uma ânfora gigante...com os tecos desenhar-te-ia linhas, traços, formas geométricas que se enlaçassem...mas não te levaria ao forno...deixar-te-ia secar ao sol, mesmo sabendo da fragilidade que isso te conferiria, talvez mesmo por saber e amar a fragilidade que isso te conferiria ...para ti tinha imaginado grandes quantidades dessa amálgama que costumo usar sonho/realidade, tinha idealizado o local onde te poria para seres a primeira e a última coisa que visse ao acordar e antes de adormecer...
...a voz diminuindo no final do telefonema fez-me decidir...
...não te vou criar/recriar...vou procurar-te por aí nas feiras saído das mãos de algum artesão/artesã , com marcas e referências de ter sido outra entidade a criar-te...e vou simplesmente roubar-te... portanto não precisas de ser grande, aliás melhor será seres pequeno para te colocar sorrateiramente no meu saco... ou vou trocar-te por uma das minhas ...depende do estado de aventura em que esteja...
...a tua voz diminuindo no final do telefonema fez-me decidir...
...ver que afinal ainda estou em barro húmido, que afinal me posso moldar também a mim mesma, desenhar em mim qualquer forma que queira, enfeitar-me com conchas, encastrar-me de pedras preciosas ou não, dar-me uma forma mais ou menos bojuda, inventar-me asas, experimentar o vidrado em mim, escolher as cores mais inverosímeis e entrar no forno quente de algum mestre em cozedura e sair de lá a ocupar um espaço diferente, com forma diferente...
...a tua voz no final do telefonema fez-me mudar...
 
HERAS DE SINTRA
missli1969@hotmail.com

Ontem em Sintra reparei como são enormes os troncos das heras das casas centenárias. Cruzam-se nas grades dos portões e das varandas com uma robustez aflitiva, parece que a qualquer momento se vão animar quais mega-serpentes para nos contar e amedrontar com histórias de terror. Já não são hastes, são troncos, já não são arbustos são árvores concretas amaldiçoadas a entrançarem-se em ferro, material tão frio, e a ocuparem o espaço violentamente, ficando com cicatrizes, sulcos profundos onde o ferro não cedeu. Mas são admiráveis e representam de um modo magistral a passagem do tempo...
Março 23, 2004
 
BUCÓLICA
missli1969@hotmail.com

...encontar uma casa abandonada, uma quinta cheia de ervas daninhas, um pomar que há muito não é podado e partir para a reconstrução da casa, o cultivo da quinta, a poda e até a enxertia nesse pomar!
...uma casa grande para poder albergar os amigos que ficam, que vêm e que vão. Mas simples e confortável para que nos sentissemos bem (camas de ferro forjado por favor)...talvez uma lareira.Um forno para cozer pão, sem dúvida.
Muitas galinhas, muitos patos e um lago porque não?...
Um estendal enorme , um tanque para lavar á mão algumas peças (mas uma máquina de lavar lá dentro).
Uma casita de madeira para guardar as alfaias e espalhar a batata pelo chão, pendurar a cebola em tranças e o alho, guardar as maçãs para levar para a próxima venda. Nada de pesticidas nem herbicidas, essas ervas daninhas catadas á mão...E um sorriso nos lábios a cada cacarejar de galinha, a busca dos ovos numa cesta como deve ser,partilhar com os filhos uma gemada fresca.Com os meus filhos e os filhos que vierem dos outros, talvez adoptar algum...
...Repartir as tarefas e suar ao sol , debruçada, em alguma apanha ou esticando os braços no encalce de um fruto. Comer moderadamente e bem...Ter tempo para ver o pôr do sol (quero um alpendre e uma cadeira de baloiço!)enquanto se bebe aquele chá á maneira, ter tempo para brincar e esquecer o blog. Ter um cão, qualquer cão, talvez ir a um canil e trazer dois, porque não?... Ter alguns gatos a dormitar no quintal e alguns canteiros para plantar as dálias e as sardinheiras da minha infância, as ervas de cheiro e malmequeres a rodos...
...partilhar tudo isto com bastantes pessoas, pessoas amigas, pessoas queridas sem deixar de previligiar uma boa aparelhagem e um bom mix de cds escolhidos ecleticamente.
...Pode ser que este sonho se torne realidade, de prefrência perto do mar!Seria perfeito então. Poder deixar a maresia entrar por nós adentro...
...Voltar a sonhar assim é renascer!
...Hoje sonhei acordada com o meu amigo Tiago e a felicidade instalou-se. Com ele consigo essa paz de no silêncio reconhecermos as palavras que vamos dizer daí a pouco, consigo reinventar a esperança na alternativa! Deus queira que possamos não só sonhar mas fazer daqui a uns anos.
Março 22, 2004
 
Sun Save the Prince
missli1969@hotmail.com
("Em Metáfora"=último post)


Aquela janela de "águas furtadas" com os vidros embaciados pelo calor dos corpos emoldurava o momento... o som vinha de longe em toque sintético e as palavras soltavam-se como balões e prendiam-se coloridamente ao tecto branco.
Aquela janela inclinava a realidade de ser madrugada e todos dormirem e eu estar acordada. Debaixo dela tinhas-te enrolado tu em posição fetal, meio envolto numa manta de franjas suaves que te acariciavam o peito... E por ser Verão, sobretudo por ser Verão, a janela ficava destrancada e movia-se com a brisa das cinco e a brisa deslizava mansamente e soltava uma mecha do teu cabelo...e tu sentias e viravas-te e a manta resvalava do teu peito que ia e vinha numa respiração compassada. Nesse tempo bastava o carinho de uma bisnaga de leite condensado e todos os amuletos tilintavam. Bastava um jardim e tu adormecias em braços de fadas transparentes com uma luna sempre presente a marcar-te as camisas com as suas patas no prazer de te ter como dono. Bastava o sorriso de uma mulher e tu seguia-la...Bastava um raio de sol e tu deliravas...
Hoje que estás tão longe, tão a norte, também entranças os teus dias com o cheiro da terra e continuas em sonho o teu percurso de príncipe árabe!
Março 21, 2004
 
EM METÁFORA
missli1969@hotmail.com

Tive um segredo guardado muitos anos e nunca o vou desvendar.
Um segredo carismático, que molda as palavras no ar com uma voz inesquecível.
Esse segredo tem contornos bem reais e traz consigo sons de mar, traços de rigor que se desvazem em ondulações mornas.
Tenho um segredo para guardar por muitos anos, porque de todo o caudal de emoção que rega esta saudade crescem raízes de uma racionalidade, de um respeito , de uma admiração que nunca me atreveria a trair.
Tenho um segredo enorme parametrizado ao longo de anos como um dos meus melhores segredos. Um segredo que sabe lançar as palavras como se lançasse a sua cana de pesca ao mar. Se nesse mar existir um só peixe ele virá para trincar a isca/a palavra.
O meu segredo não é diáfano, nem agreste, nem mutante. O meu segredo é forte, é cavalheiro, é igual a si mesmo.
Esse segredo partilho-o com a vontade de sorrir, com a vontade de tocar, com a necessidade de não enlaçar, mas soltar, deixar ir, deixar voltar. Teço-lhe a existência com a presença, e a sua ausência é sagrada, não profanável, inviolável.
A existência desse segredo é tão alta que toca o sol, tão energética que me faz irradiar, tão sábia que me deixa qual geisha de cabeça inclinada pelas memórias mais agradáveis. A existência desse segredo desfaz qualquer noção comum de relacionamento. Desenvolve-se num jogo agradável de jogar.
Para esse segredo toda a espera é valiosa porque o seu tempo se conta em minutos preciosos.
Segredo, é bom guardar-te! Em tabelas de prazer, em atitudes de bem-estar em nós de gravata a desfazer... Em cada cada objecto que te vier a oferecer irá também a minha vontade de te rever, sem deslizes na tua grandeza de arquitecto do saber/sabor.
Março 18, 2004
 
PARA O ÚNICO "HOMEM" QUE JAMAIS DEIXAREI DE AMAR
missli1969@hotmail.com

...hoje caiu mais um dente ao meu filho e ele telefonou-me...e é tão raro ele tomar essa iniciativa (telefonar-me) que dei comigo toda inchada a responder-lhe ao telefone enquanto anunciava baixinho: é o Gil, é o Gil...
...ele tem apenas dez anos mas ás vezes quando paramos a conversar dou-me conta do que ele já viveu!Consegue ter uma visão racional das coisas mas sei que sofre bastante...quero ajudá-lo mas ele refugia-se em contradizer-me, em irritar e ser bruto com a irmã, em enfrentar-me com os olhos bem abertos...o meu filho está a sofrer silenciosamente como faz sempre.Desta vez não sintomatizou com a gaguez mas com a desatenção, com a distracção e com o modo como repete adjectivos para me enfrentar, adjectivos que foi ouvindo, que até já sabe o que querem dizer e que se calhar até se colam a mim; no entanto, adjectivos que era escusado ele ter ouvido para os saber, para mos lançar quando lhe imponho um limite. Enfrenta-me até á minha brusquidão como quem pede um estalo para sentir que ainda vive. Agora tem dez anos, e quando tiver 15 ou 16? Sei que vou conseguir as coordenadas para o reencaminhar com Amor, sei que ele admira um homem especial que tomou como avô que tem reservas de sabedoria e fé suficientes para o desviar de qualquer coisa que o prejudique mesmo. Mesmo assim continuo a orgulhar-me da rapidez de resposta e argumentação dele, da forma como se transforma noutra personagem quando está na escola, na forma como afaga os cabelos da irmã quando ela dorme, na força que imprime aos beijos que me dá e no modo como me elogia de há uns tempos para cá. O homem das estatísticas pesa-me diariamente todo contente, é que já lá vão 20 kg. E até reparou que voltei a pôr body milk.
Meu querido filho faz dessas paisagens tenebrosas que te povoam o cérebro em pesadelo a aprendizagem para criares sempre algo muito belo. Amo-te.

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